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Querido Scott,
Hoje terminou mais uma fase do meu percurso, graças ao nosso trabalho. Já tem um tempo em que fazemos tudo isso dar certo, confesso que se não fosse a sua força de vontade eu nunca iria conseguir sozinha, até porque sou pessimista demais para achar que algo algum dia poderia dar certo para mim. Hoje, penso que a forma como você me fazia rir transformava tudo que era sério e formal em algo simples e bobo, a ponto de deixar meus dias menos banais e sem vida. A nossa maior semelhança sempre foi adorar os dias chuvosos, não porque dias assim são aconchegantes para uma bela noite de sono, mas por terem um ar tão nostálgico e pessoal. A noite era o nosso refúgio, passávamos horas discutindo assuntos e ideias que muitas vezes foram esquecidos ali mesmo. Em um quarto pouco iluminado, com paredes rachadas e um guarda-roupa antigo, nosso pequeno sossego. Mas você sempre teimou em achar que o amor era a resposta para tudo, não é mesmo? Sempre achou que ele poderia salvar o presente, afinal, você ria do passado e imaginava um futuro em que as batatas fritas iriam dominar o mundo. Nunca se importou com algo que ainda não conhecia e que estava por vir. Mas eu não, passava os dias temendo o amor e o futuro. Como consegue ser tão frio a ponto de não temer o desconhecido? Sugiro que sua mania de achar graça em tudo esteja envolvida nisso. Eu poderia falar sobre os meus dias, mas eles nunca foram tão interessantes assim, portanto, deixo esse pequeno assunto, que não é nada estimulante, para outro momento. Só escrevi mesmo porque lembrei de você por esses dias, afinal, aqui tem chovido bastante e essa sempre foi a nossa maior semelhança.
Com carinho,
Morgana.

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Vez uma era

Era uma vez ele
E dele era uma vez
Era uma vez um tímido
Um tímido assustado era
Era um, era

Era ele que me esqueceu
Que me esqueceu com poucas palavras
Com poucas me deixou palavras
Com o silêncio me deixou
Era uma vez eu deixada

Era uma vez ele
Ele que andava com passos pequenos
Com passos amargos
Amargos como seu sorriso
Sorriso amável esse

Doce era uma vez
Vez que logo esqueci
Esqueci dos seus cabelos
Cabelos negros
Negros os cabelos que sua mão alisava
Mãos pálidas as que alisavam
Mãos que alisam outras

Era uma vez
Uma vez que já não é mais, era
Era belo e feio
Era alegre e chato
Era e era
Do que importa? Já era.